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Espelho Mágico (Parte II)

Espelho Mágico (Parte II)
Mário Quintana

Dos Nossos Males
A nós nos bastem nossos próprios ais,Que a ninguém sua cruz é pequenina.Por pior que seja a situação da China,Os nossos calos doem muito mais...

Da Eterna Procura
Só o desejo inquieto, que não passa,

Faz o encanto da coisa desejada...
E terminamos desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada.

Do Pranto
Não tente consolar o desgraçado

Que chora amargamente a sorte má.
Se o tirares por fim do seu estado,
Que outra consolação lhe restará?

Do sabor das coisas
Por mais raro que seja, ou mais antigo,

Só um vinho é deveras excelente:
Aquele que tu bebes calmamente
Com o teu mais velho e silencioso amigo...

Dos Sistemas
Já trazes, ao nascer, tua filosofia.

As razões?
Essas vem posteriormente,
Tal como escolhes, na chapelaria,
A forma que mais te assente...

Do exercício da filosofia
Como o burrico mourejando à nora,

A mente humana sempre as mesmas voltas dá...
Tolice alguma nos ocorrerá
Que não a tenha dita um sábio grego outrora...

Das idéias
Qualquer idéia que te agrade,

Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez do que vestir a verdade
que dentro em ti se achava inteiramente nua...

Da amizade entre mulheres
Dizem-se amigas... Beijam-se...

Mas qual!Haverá quem nisso creia?
Salvo se uma das duas, por sinal,
for muito velha, ou muito feia...

Da Felicidade
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,

Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!

Da Realidade
O sumo bem só no ideal perdura...

Ah! Quanta vez a vida nos revela
Que "a saudade da amada criatura"
É bem melhor do que a presença dela...

Do Amoroso Esquecimento
Eu, agora - que desfecho!Já nem penso mais em ti...

Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

Da discrição
Não te abras com teu amigo

Que ele um outro amigo tem.
E o amigo de teu amigo
Possui amigos também...

Da Preguiça
Suave preguiça, que do mau-querer

E de tolices mil ao abrigo nos pões...
Por causa tua, quantas más ações
Deixei de cometer!

Do ovo de Colombo
Nos acontecimentos, sim, é que há destino:

Nos homens, não - Espuma de um segundo...
Se Colombo morresse em pequenino,
O Neves descobria o novo mundo!

Do mal da velhice
Chega a velhice um dia...

E a gente ainda pensa
Que vive...
E adora ainda mais a vida!
Como o enfermo que em vez de dar combate à doença
Busca torná-la ainda mais comprimida...

Da moderação
Cuidado! Muito cuidado...

Mesmo no bom caminho urge medida e jeito.
Como um santo perfeito...

Da calúnia
Sorri com tranquilidade

Quando alguém te calunia.
Quem sabe o que não seria
Se ele dissesse a verdade...

Da experiência
A experiência de nada serve à gente.

É um médico tardio, distraído:
Põe-se a forjar receitas quando o doenteJá está perdido...

De como perdoar aos inimigos
Perdoas... És cristão...

Bem o compreendo...
E é mais cômodo, em suma.
Não desculpes, porém, coisa nenhuma,
Que eles bem sabem o que estão fazendo...

Da condição humana
Se variam na casca, idêntico é o miolo,

Julguem-se embora de diversa trama:
Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo
Que o mais sutil dos sábios quando ama.

Da própria obra
Exalça o remendão seu trabalho de esteta...

Mestre alfaiate gaba o seu corte ao freguês...
Por que motivo só não pode o poeta
Elogiar o que fez?

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