Não há refúgio da memória
e do remorso nesse mundo. Os espíritos de nossos feitos tolos nos assombram, com
ou sem remorso.
Gilbert Parker
Aristóteles
Qualquer
um pode zangar-se - isto é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida
certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa - não é fácil.
Aristóteles
A crueldade dos jovens
CRÔNICA
A crueldade dos jovens
Walcyr Carrasco | 08/09/2010
Conheci uma mulher cujo filho de
14 anos queria um par de tênis de marca. Separada, ganhava pouquíssimo como
vendedora. Dia e noite o garoto a atormentava com a exigência. Acrescentou mais
horas à sua carga horária para comprar os tênis. Exausta, ela presenteou o
filho. Ganhou um beijo e outro pedido: agora ele queria uma camiseta 'da hora'.
E dali a alguns dias a mãe estava abrindo um crediário! Já conheci um número
incrível de adolescentes que estabelecem um verdadeiro cerco em torno dos pais
para conquistar algum objeto de consumo. Uma garota quase enlouqueceu a mãe por
causa de um celular cor-de-rosa. Um rapaz queria um MP3. Novidades são lançadas
a cada dia e os pedidos renascem com a mesma velocidade. Pais e mães com
frequência não conseguem resistir. Em parte, por desejarem contemplar o sorriso
no rosto dos filhos. Uma senhora sempre diz:
— Quero que minha menina tenha o
que eu não tive.
Pode ser. Mas isso não significa
satisfazer todas as vontades! Muita gente é praticamente chantageada pelos
filhos. A crueldade de um adolescente pode ser tremenda quando se trata de
conseguir alguma coisa. Uma vez ouvi uma jovem gritar para o pai:
— Você é um fracassado!
Já conheci uma garota cujo pai se
endividou porque ela insistiu em ir à Disney. Os juros rolaram e, dois anos
depois, ele vendeu a casa para comprar outra menor e quitar o empréstimo. Outro
economizou centavos porque a menina quis fazer plástica. Conselhos não
adiantaram:
— Você é muito nova para colocar
implante de silicone.
Ficava uma fúria. Queria ser
atriz e, segundo afirmava, não teria chance alguma sem a intervenção. (Não
conseguiu. Hoje trabalha como vendedora em uma loja.) Procedimentos estéticos,
como clareamento de dentes, spas e, claro, plásticas, são muito pedidos, ao
lado de roupas de grife, excursões, joias, celulares e todo tipo de eletrônico.
É óbvio que o jovem tem o direito de pedir. O que me assusta é a absoluta falta
de freio, a insistência e a total incompreensão diante das dificuldades
financeiras da família. Recentemente, assisti a uma situação muito difícil. Mãe
solteira, uma doméstica conseguiu juntar, ao longo de anos, o suficiente para
comprar uma quitinete no centro de São Paulo.
— Vou sair do aluguel! —
comemorou.
A filha, 16 anos, no 2º grau,
recusou-se:
— Quero um quarto só para mim!
Não houve quem a convencesse. A
mãe não conseguiu enfrentar a situação. Continuam no aluguel. O valor dos
apartamentos subiu e agora o que ela tem não é suficiente para comprar mais
nada.
Muitas vezes, os filhos da classe
média estudam em colégio particular ao lado de herdeiros de grandes fortunas.
Passam a desejar os relógios, as roupas, o modo de vida dos amigos milionários.
— De repente a minha filha quer
tudo o que os coleguinhas têm! Até bolsa de grife.
Uma coisa é certa: algumas
equiparações são impossíveis. A única solução é a sinceridade. E deixar claro
que ninguém é melhor por ter mais grana, o celular de último tipo, o último
lançamento no mundo da informática. Pode ser doloroso no início. Também é
importante não criar uma pessoa invejosa, que sofre por não ter o que os outros
têm. Mas uma família pode se desestabilizar quando os pais se tornam reféns do
pequeno tirano. A única saída para certas situações é o afeto. E, quando o
adolescente está se transformando em uma fera, talvez seja a hora de mostrar
que nenhum objeto de consumo substitui uma conversa olho no olho e um abraço
amoroso.
e-mail: walcyr@abril.com.br
Oscar Wilde
Por
detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível.
Mas, por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a
dor não tem máscara.
Oscar Wilde
Pensamento
Martha Medeiros
Não é um defeito que mereça entrar no rol dos crimes hediondos, mas é bem chato: pessoas que falam em cima da fala da gente. Ainda nem terminamos a frase, e o nosso interlocutor já está falando junto, numa demonstração clara de que não importa o que estamos dizendo, ele próprio tem algo mais importante a dizer.
Pode parecer uma crítica, mas é, na verdade, uma autocrítica: entre essas pessoas, estou eu mesma. Minha família é ótima, alegre, desinibida, mas tem essa mania incontrolável: todos falam em cima dos outros. Não somos italianos, e sim ansiosos (nascidos e criados num país fictício chamado Ânsia). É um costume que passa de geração para geração. Mães, pais, avós, tios, primas, todos praticam essa esquizofrenia de não permitir que ninguém termine uma fala, ninguém. A conversa é de doidos, mas as festas são animadas.
Fui incorrigível, desse mesmo jeito, por muito tempo, até que comecei a perceber o quanto a situação é desagradável para quem não faz parte da nossa árvore genealógica. Levei uns puxões de orelha das amigas, o que me salvou. Hoje, se não estou 100% curada, posso dizer que já consigo me conter um pouco. Procuro não sair falando junto, em cima, atrapalhando o trânsito das palavras. Ouço o que o outro tem a dizer, mas ainda cometo o pecado de terminar a frase por ele. Basta que o coitado vacile na conclusão da sua argumentação, buscando uma palavra que não vem, e eu rapidamente encontro a palavra que ele procurava. Quase sempre acerto, o que não me redime. Por que raios não esperei ele próprio encerrar seu discurso? Nascida em Ânsia, num lugarejo chamado Impaciência.
Pode parecer uma crítica, mas é, na verdade, uma autocrítica: entre essas pessoas, estou eu mesma. Minha família é ótima, alegre, desinibida, mas tem essa mania incontrolável: todos falam em cima dos outros. Não somos italianos, e sim ansiosos (nascidos e criados num país fictício chamado Ânsia). É um costume que passa de geração para geração. Mães, pais, avós, tios, primas, todos praticam essa esquizofrenia de não permitir que ninguém termine uma fala, ninguém. A conversa é de doidos, mas as festas são animadas.
Fui incorrigível, desse mesmo jeito, por muito tempo, até que comecei a perceber o quanto a situação é desagradável para quem não faz parte da nossa árvore genealógica. Levei uns puxões de orelha das amigas, o que me salvou. Hoje, se não estou 100% curada, posso dizer que já consigo me conter um pouco. Procuro não sair falando junto, em cima, atrapalhando o trânsito das palavras. Ouço o que o outro tem a dizer, mas ainda cometo o pecado de terminar a frase por ele. Basta que o coitado vacile na conclusão da sua argumentação, buscando uma palavra que não vem, e eu rapidamente encontro a palavra que ele procurava. Quase sempre acerto, o que não me redime. Por que raios não esperei ele próprio encerrar seu discurso? Nascida em Ânsia, num lugarejo chamado Impaciência.
Nós, os acelerados de berço, não fazemos por mal, mas precisamos nos dar conta de que duas pessoas falando juntas é a anticomunicação. Sabemos como é azucrinante ter que concluir nosso pensamento e, ao mesmo, tempo ouvir o que o nosso interlocutor está dizendo. Por isso, me compadeço de entrevistadores que usam o ponto eletrônico no ouvido, aquele dispositivo que permite que se receba instruções do diretor do programa. Que sufoco ouvir duas vozes ao mesmo tempo, a do entrevistado falando sobre sua obra e a do diretor avisando: “Arruma o cabelo que caiu no rosto”, “Não esquece de perguntar sobre o escândalo do ano passado”, “Corta esse chato e chama o comercial”.
Duas vozes simultâneas: adeus, diálogo. Faz alguns anos que prometi a mim mesma: não vou mais me atravessar. Vou aguardar minha vez. Esperar a amiga falar, o namorado concluir. Vou escutar. Vou respeitar. Quieta, deixa ele acabar. Ai, que aflição, não vou conseguir. Putz, não me segurei. Falei em cima, de novo.
Desculpe, desculpe. Termine o que você estava dizendo.
Martha Medeiros
marthamedeiros@terra.com.br
Publicado no Jornal de Santa Catarina n° 12443 em 17/12/2011.
Eleanor Roosevelt
“Você ganha força, coragem e confiança em toda experiência em que você encara o seu medo. Você deve fazer aquilo que pensa que não pode fazer.”
Clarice Lispector
Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
Frases e Pensamentos de Clarice Lispector
Buda
Sétimo
José Miguel Wisnik
Sétimo
Ter ido uma vez ao sambódromo está entre os maiores acontecimentos que já presenciei. A frase provocativa de Oswald de Andrade, “Wagner submerge ante os cordões do Botafogo”, escrita no manifesto pau-brasil antes de existirem os desfiles das escolas de samba, fica cheia de verdade e de ressonâncias proféticas. Fora isso, assisto pela televisão a algumas escolas, com um interesse variável e não muito fiel. A transmissão chapa em muito a grandeza acachapante da “obra de arte total”. O caráter genérico do gênero prevalece muitas vezes sobre tudo o que ele mantém de fascinante. Mas fico torcendo, mesmo assim, para não estar de fora na hora em que acontecer algum evento sem paralelo. O que se passa quando a excelência supera a maestria consolidada e, sem abrir mão do controle técnico, desvela alguma coisa que o próprio controle técnico esconde. Foi o que senti com a Mangueira.
Acho que ninguém duvida da excepcionalidade do desfile da Mangueira, mesmo que o sétimo céu que ela atingiu tenha se traduzido, na hora da premiação, num sétimo lugar. Não estou focado prioritariamente na premiação. O gabarito avaliativo, segmentado em quesitos especializados, cobrindo pontualmente todos os aspectos de um desfile, é uma somatória que não capta certas qualidades totalizantes que extravasam das especialidades. Em outras palavras, é uma conta de mais e de menos que não dá conta, justamente, da potência de um acontecimento exponencial, no qual entram elementos variáveis, indeterminados e não segmentáveis.
Não estou discutindo com isso a justeza ou a justiça do resultado, dentro dos seus critérios, mas afirmando que há coisas que ele não é capaz de captar pela própria natureza do molde mental que o preside. Muitas coisas, aliás, no estado atual da arte, são avaliadas segundo o mesmo modelo.
A própria “paradona” da bateria Surdo Um da Mangueira, por exemplo, foi insistentemente descrita como uma proeza da ordem dos recordes, isto é, só entendida se quantificada, à maneira de um feito extracurricular da olimpíada do samba. Mas o que ela instaurava era mais ainda do que a inédita e arriscada suspensão, por toda uma volta do samba, desse sinal de sincronia que garante o movimento unificado das milhares de pessoas. Como a bateria da escola de samba é o som constante e dominante de um desfile, que está ali como se desde sempre e para sempre, com a exceção das “paradinhas” que confirmam a regra, suspendê-lo por tanto tempo é instaurar a quase surreal “presença de uma ausência”, em que a bateria fica soando ainda na sua falta.
Mas a “paradona” não faria sentido nenhum se o samba não correspondesse e não tivesse a capacidade de empolgar as arquibancadas. Porque era o canto do sambódromo inteiro que ocupava e preenchia o vazio deixado pela bateria, como se trocasse de função com ela, tornando-se o portador da pulsação subjacente, mantendo a sincronia perfeita até a volta da percussão.
A questão está longe de parar aí. A proposta do enredo, por sua vez, era a afirmação da sintonia da Estação Primeira com o Cacique de Ramos, da escola com o bloco que tem sido uma espécie de fio condutor do samba carioca, da batucada com o canto, da escola de samba com o fundo de quintal. Como é sabido, os enredos e os desfiles são todos “alegóricos”, isto é, representações de fatos históricos, personagens, temas gerais, do iogurte à realeza ou do que seja, através de figurações concretas.
Tecnicamente, dentro de uma longa tradição, a alegoria é a representação figurada de uma “outra coisa”. As escolas em geral têm caminhado na direção de uma hipertrofia alegórica, com a correspondente espetacularização hiperbólica dos carros. A “alma da sanfona”, na abertura do desfile da Unidos da Tijuca, é um bom exemplo de virtuosismo alegórico levado ao extremo, nos confins do malabarismo, dos truques mágicos e dos efeitos de Cirque du Soleil, para dar corpo visível e concreto a um conceito inefável: o “espírito” do instrumento de Luiz Gonzaga. Paulo Barros tem sido um inovador ousado e refinado nessa verdadeira corrida desenfreada à alegoria. O enredo deste ano, ao que parece, foi mais palatável e premiável do que os seus dos anos anteriores.
Mas, voltando ao assunto: talvez a coisa mais profunda e inédita que Mangueira tenha feito este ano foi rebaixar o tom alegórico geral, saindo dessa corrida desenfreada e fazendo um desfile em que, em vez de “representar outra coisa”, isto é, o bloco Cacique de Ramos, “contando-lhe” a história etc. etc., ela tenha se transformado naquilo que representa, falando de algo sendo o mais próximo possível desse algo de que fala. Como se Mangueira “parasse”, não só a bateria, mas desse uma parada salutar nessa alegorização compulsiva de tudo quanto existe para desvelar o veio do samba que corre por baixo. E o samba, afinal, não falava de nenhuma outra coisa, senão desse lugar “de quem pôde chegar aonde a gente chegou”.
Texto publicado no Jornal O Globo - Segundo Caderno em 25 de fevereiro de 2012.
Promoção
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Quando o fracasso nos desafia de perto...
Quando a tentação e a enfermidade nos visitam...
Quando a nossa esperança se dissolve no sofrimento...
Quando a provação se nos afigura invensível...
Quando somos apontados pelo dedo da injúria...
Quando os próprios amigos nos abandonam...
Quando todas as circunstâncias nos contrariam...
Quando a mágoa aparece...
Quando a incompreensão nos procura, ameaçadora...
Quando somos intimados a esquecer-nos, em benefício dos outros...
Então, é chegado para nós o teste de aproveitamento espiritual, na escola da vida, para efeito de promoção.
Albino Teixeira
(Mensagem Psicografada por Francisco Cândido Xavier)
Pensamento
Todos usamos máscaras e chega o tempo quando não conseguimos tirá-las sem remover nossa pele junto.
Andre Berthiaume
Pensamento
“Não existe testemunha tão terrível, nem acusador tão terrível como a consciência que habita no coração de cada homem.”
Políbio
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